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40 anos do HIV: como a ciência contribuiu para melhorar a vida de quem tem o vírus

Érika Klann

Por Érika Klann

HIV


O dia 1º de dezembro marca a grande campanha nacional na luta contra o vírus HIV (Vírus da Imunodeficiência Humana), a Aids e outras IST (infecções sexualmente transmissíveis), com foco na prevenção, assistência e proteção dos direitos das pessoas infectadas com o HIV.

A Aids (Síndrome da Imunodeficiência Adquirida) é uma doença sistêmica desenvolvida, através do surgimento de doenças chamadas oportunistas, como consequência da infecção pelo HIV. Este vírus pertence ao grupo dos retrovírus e tem o RNA (e não o DNA) como genoma. Ele ataca células específicas do nosso sistema imunológico, mais especificamente os linfócitos T CD4+ (linfócitos que possuem a glicoproteína CD4 na superfície). 

Após entrar na célula infectada, o seu RNA é convertido em DNA, através da ação da enzima transcriptase reversa. Assim, como DNA, ele consegue se integrar ao DNA humano, com a ajuda de outra enzima, chamada integrase. A maquinaria intracelular passa, então, a produzir as proteínas virais como se fossem proteínas da própria célula e, com a ajuda de uma terceira enzima, a protease, as proteínas do HIV são cortadas e empacotadas junto com os RNAs virais que foram produzidos, formando novas partículas do vírus, que saem da célula para infectar novas células.

         No Brasil, os testes para detecção do HIV, assim como todos os tratamentos, são gratuitos (oferecidos pelo SUS) e de resultado rápido e sigiloso. E todas as pessoas diagnosticadas positivas têm o direito de iniciar o tratamento antirretroviral imediatamente, protegendo o seu sistema imunológico.

         Após 40 anos da identificação do HIV, os avanços científicos e tecnológicos permitiram que os soropositivos, que seguem o tratamento corretamente, tenham uma qualidade e expectativa de vida aumentadas. Mas, mesmo com inúmeras campanhas e aumento de informações, dúvidas e estigmas ainda povoam a mente de quem encara o resultado positivo pela primeira vez.

         No Brasil, segundo o Ministério da Saúde, em publicação do boletim epidemiológico de 1º de dezembro de 2020, foram diagnosticados 41.909 novos casos de HIV e 37.308 casos de Aids, em 2019. Nos últimos 13 anos, o Brasil diagnosticou mais de 342 mil pessoas com HIV.

         Nas décadas de 80 e 90, receber um diagnóstico positivo para HIV era praticamente uma sentença de morte. Hoje, com os esforços da ciência em termos de pesquisa e informação, temos grandes avanços no diagnóstico e tratamento dos pacientes, permitindo que a carga viral torne-se indetectável em alguns meses, ou seja, a quantidade de partículas virais é tão pequena que já não pode ser detectada pelos exames tradicionais de carga viral.

         Sabemos que os medicamentos impedem que o vírus se replique dentro da célula humana, impedindo que deixe a imunidade do paciente vulnerável às doenças. E como agem os medicamentos?

Como explicamos acima, o HIV tem uma estratégia de ataque muito eficaz, usando a própria célula humana para fazer cópias do vírus. Com a compreensão dessa estratégia, os pesquisadores criaram formas de impedi-los em cada uma das etapas. Hoje, já existem seis classes de antirretrovirais, inibidores de cada uma das enzimas envolvidas ou inibidores da entrada do vírus na célula. Esses compostos são combinados em diferentes coquetéis, oferecendo estratégias diversas de tratamento.

         Além da eficácia dos tratamentos, os cientistas sempre tiveram também como objetivo reduzir os efeitos colaterais e a quantidade de comprimidos tomados por dia. E já conseguiram bastante sucesso. Os efeitos, hoje, são brandos e a quantidade diária de comprimidos necessária caiu consideravelmente, aumentando a qualidade de vida dos pacientes e facilitando a adesão destes ao tratamento.

         Com todos esses avanços, as pessoas soropositivas que seguem o tratamento sem interrupções e atingem a carga viral indetectável diminuem significativamente o risco de transmissão. O que significa que, quanto mais precoce for o diagnóstico e o tratamento, menor as chances de adoecer, maior a expectativa de vida e menor o risco de transmissão. É uma estratégia bastante eficaz no controle da epidemia.

         Uma conquista importante em termos de medicamentos foi também a redução do número de mutações do HIV dentro da célula hospedeira, diminuindo a resistência ao tratamento.

         O empenho da ciência não vem somente em relação ao combate ao vírus, mas também na prevenção à infecção. Hoje, temos uma terapia altamente eficaz, chamada PrEP, cujo objetivo é prevenir a infecção pelo HIV através da ingestão diária do medicamento Truvada (nome comercial), resultado da combinação dos antirretrovirais tenofovir e entricitabina. Se utilizado de forma regular, sem interrupções, ele reduz em 90% o risco de infecção. E, mais recentemente, a aprovação pelo FDA (agência americana que regula medicamentos) do medicamento Descovy, também como prevenção.

         A ciência brasileira, mesmo sem apoio e investimentos, conquistou grandes vitórias ao longo destes 40 anos. Alguns marcos importantes, apesar de termos tantos:

– Estruturação do Programa da Secretaria da Saúde do Estado de São Paulo, primeiro programa brasileiro para o controle da Aids, em 1984;

– Criação do, até então, Programa Nacional de DST e Aids, do Ministério da Saúde, em 1986;

– Isolamento do HIV-1 (subtipo do HIV) pela primeira vez na América Latina pelo IOC/Fiocruz (Instituto Oswaldo Cruz), em 1987;

– Criação do SUS (Sistema Único de Saúde) em 1988, e que, 2 anos depois, passou a distribuir gratuitamente antirretrovirais a todas as pessoas positivas para o HIV;

– Distribuição gratuita também de preservativos masculinos e femininos;

– Desenvolvimento de ações, campanhas e estratégias de prevenção e tratamento de ISTs, e de enfrentamento à desinformação e ao preconceito;

– 3 congressos brasileiros simultâneos em 2004;

– Sede da 3ª Conferência Internacional em Patogênese e Tratamento da Aids, realizada pela International Aids Society;

– Exames laboratoriais e testes preventivos gratuitos;

– Inúmeros artigos científicos produzidos por pesquisadores e instituições brasileiras.

         Mas, estamos longe do fim desta epidemia. O Brasil reduziu as mortes por Aids nos últimos anos, muito em razão da disponibilidade de um tratamento gratuito a todas as pessoas que vivem com HIV, mas aumentou o número de novas infecções.

E, enquanto o Brasil tenta desenvolver políticas públicas eficientes e contornar esses desafios, a ciência continua evoluindo. No campo do desenvolvimento de uma vacina, um imunizante da farmacêutica Janssen mostrou proteção contra diversos subtipos do vírus e já entrou em fase final de testes.

Vale ressaltar que todas essas conquistas importantes na batalha contra a epidemia não representam um sinal verde para que as pessoas se descuidem da prevenção. O controle da doença que apavorou o mundo nos anos 80/90, e já tirou muitas vidas, depende muito ainda do comportamento responsável da população.

E o mais importante, que possamos nos despir de culpas, estigmas e preconceitos. Não existe grupo de risco e nem culpados. Somos, sim, todos vulneráveis a essa doença considerada, hoje, como mais uma doença crônica e controlável da sociedade contemporânea.

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