A sua criança precisa de pirulito

Diego Brígido

Por Diego Brígido

criança


Uma constatação: quem passou ileso pelos 40 é porque começou a tomar remédio aos 30. Não tem como chegar aqui no controle das emoções, das finanças e sequer da bexiga. A crise dos 40 não é uma desculpinha para justificar o choro descontrolado no banho ou na mesa do boteco. Não é! [pausa dramática]

Eu, que sempre me achei bem resolvido e no controle das emoções, que sempre honrei o aquariano que vive em mim, tenho a sensação de que entrei num túnel aos 39, com todo elenco de Walking Dead atrás de mim, sem uma miserável de uma luz à frente que sinalize o fim da escuridão.

Tudo bem que eu quarentei em meio a uma pandemia, que ajudou a levar, além da minha estabilidade emocional, um relacionamento, alguns projetos profissionais, o meu sono, que era regulado, e a minha relação saudável com a solitude – hoje, definitivamente, nós estamos em crise. Vai passar, bebê. E o que ele me trouxe? Ansiedade, insegurança, surtos repentinos e vontade de comer doce até dormindo. Alguém mais?

Pode acreditar, se você ainda não viveu isso, vai viver. Por uma simples razão: as crises servem para nos tirar da zona de conforto, para que mudemos a perspectiva – e, claro, para a indústria farmacêutica faturar. Hahaha. Te desejo sorte (e a quem estiver por perto também).

A sensação, por muitas vezes, é de uma escassez, uma aridez desértica, como se todo o seu potencial criativo, a sua estrutura emocional, o seu poder de realização e a sua autoestima estivessem soterrados em dunas de areia, num sol de 50 graus, com vinte camelos cagando em cima.

E aí, vale lembrar: deserto é lugar de passagem e não de morada. A gente precisa atravessar, se fortalecer e aprender com a experiência. Mas nada de criar raizes.

Não sei você, mas o compromisso com o meu adulto perverso nos últimos anos judiou da minha criança, lhe tolheu a leveza e a espontaneidade do brincar. “Você precisa acolher mais a sua criança e levá-la pra passear. Pare de castiga-la”, diz sempre a minha terapeuta.

É na nossa criança que está o nosso potencial criativo, a leveza da rotina e a alegria nas coisas mais simples. No nosso adulto controlador e neurótico está o oposto de tudo isso. Às vezes, parece que a vida perdeu o sentido, mas ela só perdeu o sentir.

Sabe aquela sensação de que você não está habitando você? De que a vida está no piloto automático e você nem copiloto é? Já sentiu? A má notícia é que se você não assumir o manche, vai parar onde não quer. A boa notícia é que sempre é tempo de tomar o controle e retraçar a rota.

Você tá morando em você? Tá habitando a sua casa ou se trancou pra fora? Às vezes, eu tenho a impressão de que me deixei de castigo lá fora e aqui dentro habita um vazio imenso. E o ruim disso é que quando você não está habitando a sua casa, entra nela quem quiser. E aí, é fogo no parquinho.

E, convenhamos, em meio a uma crise, o que a gente menos precisa é de visitas inoportunas, né? Mas, de novo, a boa notícia é que a chave tá com você e dá pra voltar pra casa quando quiser. E botar os embustes pra correr. Hahahaha. E limpar tudo, arrumar a bagunça, sacudir a poeira … e o resto você já sabe.

Tem uma frase linda da Ryane Leão que diz: “os caminhos, mesmo os tortos, saem todos do meu peito”. É isso, crises são bem-vindas e são frutos das nossas escolhas, ou da falta delas, porque, afinal, se a gente não escolhe, a vida escolhe por nós.

Vamos tratar de usar a crise a nosso favor e retomar a rédea da vida.

Ah… e não esquece de dar um pirulito pra sua criança vez ou outra.

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