As verdades mentirosas do meu amigo Tomé

Ronaldo Vaio

Por Ronaldo Vaio

meu amigo Tomé


Dia desses, encontrei por acaso meu amigo Tomé, cuja índole é de homem cético, daquele tipo a quem não basta ver a lesma contorcendo-se no chão, é preciso também tocar a gosma. Fazia uma bela porção de tempo que não nos víamos, então nos festejamos com a alegria peculiar dos reencontros inesperados, “mas como você está bem!”, ele soltou, “nossa, você não mudou nada!”, devolvi eu, nas cortesias exageradas das pequenas mentiras sociais. Mas, dito o que havia por dizer, por ele ou por mim, foi a uma distância prudente, suficiente para celebrar a amizade e manter o coronavírus nas rédeas. Papo vai, papo vem, como cabe às conversas sem pretensões além de esvaziar a cabeça e encher o coração, contei um pouco o que vinha fazendo da vida, uns negócios aqui, uns biscates ali, umas corridas acolá, a situação difícil, por certo, tudo muito apertado, muito justo, muito duvidoso, mas que no frigir dos ovos, na prova dos nove, no clamor da xepa, havia mais o que comemorar do que lamentar. “E você, o que anda fazendo?”, também eu quis saber para igualar as curiosidades e, quem sabe até, secretamente me louvar umas vantagens. Ele estufou o peito, rasgou um sorriso de lábios, sem dentes à mostra, mas de engordar bochecha, e disparou: “Estou escrevendo um livro”. 

Um livro! Que coisa mais demodê, pensei, mas já como o tempero de uns filetes da inveja que me roía o fígado. Esforcei-me, como cabe aos amigos de longa data, e entreguei-lhe a expressão de mais genuína surpresa, louvor e felicidade que consegui engendrar na frieza da alma. Ciente desses acordos tácitos, e tão sutis que deles muitas vezes não se dá conta, meu amigo agradeceu comovido e de novo me passou a bola, me devolveu a responsabilidade sobre o bom andamento das conversações. Assim, fiz-lhe a pergunta esperada, a única pergunta possível naquela etapa do jogo do fala, ouve e dissimula: qual é o tema? Ele já esperava a pergunta, claro, então respondeu com o nome da obra, revelador por si só: O Livro da Verdade – do Cochicho no Pé do Ouvido ao Grupinho do Zap Zap, disse, saboreando sílaba por sílaba, como quem se serve de generosas colheradas direto do pote de sorvete.

Minha cabeça levou um nó. Por isso mesmo, sorri por dentro, satisfeito: o livro devia ser uma pataquada com esse título enviesado, afinal, meu amigo certamente estava querendo se referir à mentira e não à verdade, já que cochicho e grupo no WhatsApp associam-se de imediato a fofoca e fake news. Deleitando-me, escolhi a dedo o jeito e as palavras para fazer-lhe enxergar o óbvio. Disse-lhe ter achado o tema instigante, mas que talvez não o tivesse compreendido em sua totalidade. Ele abriu um largo sorriso, agora, sim, com os dentes todos à mostra – parecia um cavalo ruminando capim – e afirmou que era isso mesmo, o livro era da verdade, porque à mentira havia realidade de sobra, de tal forma que já tinha muito rabudo andando por aí, do quem cochicha o rabo espicha, mas ainda faltava fogo em muito rabo, do quem reclama o rabo inflama. 

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Foi, então, desfiando um rosário de whatszapices típicas para exemplificar o teor do livro, coisas como ‘tomar banho após beber manga com leite dá tanta indigestão quanto tomar cloroquina contra o coronavírus’, seguido de ‘se a Terra é plana, a Lua tá de ladinho’, ‘minha sogra se mudou para o pantanal após tomar vacina’, ‘o ministro do meio ambiente é a cara do solzinho dos teletubies‘, ‘pode abrir igreja porque vírus não pega em lugar santo’ e por aí foi, caminhando contra o vento, sem lenço e sem documento, com tantas verdades quanto as mentiras podem suportar, uma confusão de conceitos, de virtudes e pecados, de maneira que verdade e mentira sejam perigosamente definidas na crença de cada um, à revelia da própria sobrevivência pessoal, quando não da espécie inteira. Abandonara-me qualquer desejo ou arroubo de superioridade em relação a meu amigo. Calei-me. Naquele momento decidi: vou comprar esse livro.

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