Banquete no shopping

shopping

Quem me conhece mais de perto sabe que eu trocaria o burburinho da cidade por uma casa no campo. Não iria compor muitos rocks rurais e nem música alguma, pois não é este meu dom ou meu ofício. É mesmo coisa do Zé Rodrix e de outros que, nos anos 1970, tornavam mais bonito o lema “pernas para que te quero” e foram criando cenários de tempos melhores, cantando nossas dores e amores. Ah, eu também não teria carneiros e cabras pastando no meu jardim, mas teria um jardim, um pedacinho de terra para plantar temperinhos que fariam do feijão com arroz um banquete.

Até porque, nesses tempos arrastados de pandemia, o desafio é criar banquetes para dar aos dias um ar de graça, um desenho de coisa nova, fazer de conta que a gente entendeu direitinho o recado de Benjamin Disraeli: “A vida é muito curta para ser pequena”. Falando nisso, onde anda sua fita métrica, sua trena, seus dedos esticados para medir em palmos esse agora tão pequeno? Quem ainda caminha por aí sem entender nada da brevidade que nos espreita, sem esticar os olhos para fazer mais larga a vida, pode perder as flores de primavera, que se abrem sem pedir licença pra você, sem esperar que você lhes ofereça um olhar de espanto, um nariz curioso, uma vontade incontida de levar todas para casa.

Estiquei os olhos para dentro da loja de artigos esportivos no shopping. Imagine só! Para quem sonha com casa no campo, ir ao shopping, com aquelas luzes estonteantes, o piso brilhante e um burburinho que não para nunca é transpor o portão do desassossego. Mas eu tinha uma boa razão, dessas que tornam a vida grande: um portador levaria além-mar os brinquedinhos para os netos librianos, e ir ao shopping tinha, assim, uma razão nobre. Era o jeito de chegar até o aniversário dos miúdos a bordo de carrinhos do Homem Aranha e de braço dado com o Ben 10, prazer em conhecer.

Mas como “a gente (não) somos inútil” e da vida quero sempre mais, meus olhos se desviaram do moletom charmoso do manequim sentadinho de pernas cruzadas e passearam pela loja, de pé direito alto, buscando o tempero para um banquete no shopping. Encontrei lá no alto, no amontoado de palavras escritas uma atrás da outra, sem pontuação entre elas, para eu mesma construir o seu sentido. E que sentido deram ao meu dia, como tornaram grande a estrada até aqui, como fizeram eu me sentir convidada especial ao banquete montado em plena manhã! 

Essa é a sua vida

Siga o seu instinto

Agradeça sempre

Aprender faz parte  do conhecimento

Corpo e mente em equilíbrio

Respire

Lute pela verdade e seja humilde

O que nos une são as nossas diferenças

As coisas boas estão à sua espera

Desacelere e tire uma folga

Acredite

Evite analisar demais

As emoções são lindas

A vida é simples

E quando comer, aprecie até a última mordida.

Quando eu sonhar com uma casa no campo, vou escrever na porta de entrada tudo isso. E quem se sentar à mesa comigo, vou pedir que aprecie até a última mordida. É assim que se faz num banquete quando a vida é grande.

(Frases escritas na parede da Authentic Feet, loja no Praiamar Shopping)

Vera Leon
Últimos posts por Vera Leon (exibir todos)
4 4 votos
Classifique este artigo
Assine
Notificar de
guest
1 Comentário
Mais antigos
Mais novos Mais votados
Comentários em linha
Exibir todos os comentários
Raul Christiano
Raul Christiano
13 dias atrás

Vc é a minha cronista contemporânea preferida!

Scroll to top
1
0
Por favor, comente.x
()
x