Bem-vinda a Portugal!

Vera Leon

Por Vera Leon

 

Portugal

Como uma brasileira como eu, sem aquela maravilha que é ter dupla cidadania, consegue embarcar para um país da União Europeia, em plena pandemia? Com as portas fechadas para o Velho Mundo, este também a amargar dias de Covid, em mais um episódio de Covid, O Retorno, o Brasil é persona nada grata além mar. Mas quando o filho chama, não importa de qual lugar ele acena, pode crer que a mãe escuta.

E a mãe virou uma Mata Hari do século 21! Disposta a encontrar uma brecha na rígida legislação que nos colocou de escanteio como viajantes, eu só me encaixava em uma condição: familiar direto de cidadão europeu com residência legal em um país da Europa, no caso, Portugal. Desafiaram a pessoa certa, pois além de mãe, essa categoria que se sobrepõe a normas, avisos e leis, sou também jornalista e, como tal, a resposta precisa ser convincente, precisa fazer sentido. 

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Papo de Vendedor

A profissão ensinou-me isto: pergunte, pergunte e, de novo, pergunte. Para isso, ouvem-se fontes, consultam-se sites (inclusive do governo portugues, claro!), assistem-se muitos vídeos, até que se possa juntar A com B. De tanto insistir, acabo confirmando que não basta ser mãe… tenho que provar que sou! Além da certidão de nascimento do filho, carrego numa pasta organizada com capricho também a carta-convite que de Portugal ele me envia, cópias dos seus passaportes, documento de residente, mais isso, mais aquilo… e o famigerado teste de Covid com até 72 horas de antecedência do desembarque.

Até que a simpática Natalia me liberasse no check in da Azul, vivi momentos de tensão. Aliás, tensão que começa quando o moço vestido como astronauta, no laboratório montado no drive thru em Santos, enfia um cotonete no meu nariz e aquela haste parece chegar ao cérebro! A sorte é que quando você pensa em dar um tapa na mão dele, o cotonete é retirado e o moço, gentilmente, pede que você escancare a boca, diga AAAAAAAAAAA, e um outro cotonete invade a intimidade da sua goela. Ao buscar o resultado, na véspera do embarque, aquelas duas palavras (NÃO DETECTADO) tiveram o poder de mudar meu humor. Fui tomada de uma alegria quase infantil, pois etapa decisiva fora vencida. 

Mas até que a simpática Natalia me liberasse, ela pediu tudo o que tinha direito! Um a um fui apresentando os documentos, com a determinação de mãe decidida e orgulho de jornalista perseverante. Bagagem despachada, cartão de embarque na mão, 10 horas de voo (com máscara todo o tempo) me separavam de outra prova de fogo: o desembarque em Portugal. Estava convencida que a maior vigilância tinha sido mesmo da Natalia no Brasil, mas nunca se sabe com que humor acorda o pessoal do serviço de fronteira, ainda mais quando o dia nem clareou.

Antes de qualquer coisa, uma comissão de frente espera os passageiros sonolentos, mal colocamos os pés em território português. Passaporte e teste de Covid na mão, é preciso também baixar a máscara, e só depois desta checagem essencial é que se chega ao serviço de controle de passaporte. De novo, mais perguntas, mais documentos que confirmem o que estou dizendo, até que, com o adorável sotaque português, o jovem me diz exatamente o que eu precisava ouvir: “bem-vinda a Portugal”. 

E cá estou, a escrever esse texto, no silêncio de um dia com toque de recolher, pois a Covid está a assustar os portugueses. Ou pelo menos a fazer o governo português tomar medidas, pois são poucas as pessoas usando máscara, exceto nos lugares onde elas estão mais próximas, como supermercados e alguns outros lugares públicos. No mais, o céu aqui é de um azul tão intenso, o dia é tão luminoso e o mar se veste com um véu de luz tão brilhante que a pandemia parece coisa de ficção. 

Tudo é real. A beleza que enxergo e o desassossego de um mundo doente. A sabedoria é criar, entre a graça e a dor, uma ilha de amor. A minha está plantada no bairro Alapraia, tem nome e sobrenome, e seus habitantes não duvidaram, em nenhum momento, que, como mãe e jornalista destemidas, sou melhor ainda como avó cheia de saudade.

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Rubia
Rubia
5 dias atrás

que delícia VEra. Parabéns por esta grande aventura

Joaquim Ordonez
Joaquim Ordonez
4 dias atrás

Delícia de texto, Veroca. Você, na tua paz habitual, já é delicadamente poderosa, imagine agregando poderes extraterrestres que só as mães, com o sangue maternal em ebulição, conseguem em situações extremas e que se tornam ainda mais extremas quando o desafio inclui a saudade do neto. Nessas circunstâncias, não há obstáculo, tempestade, cansaço ou pandemia que segure a força invisível do amor, nem mesmo a simpática Natália com as suas exigências passageiras. Resumindo o que tento resumir com palavras: Quando você incorpora numa mesma missão os seus sublimes dons de repórter, mãe e avó, não tem erro. Você é mais invencível que a Mulher Maravilha. Beijos carinhosos daqui do além mar.

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