Casos de gripe: saiba tudo sobre o surto de H3N2 cepa Darwin

Érika Klann

Por Érika Klann

gripe


Quando a pandemia do Sars-CoV-2 parece ter sido, finalmente, controlada aqui no Brasil, surge uma nova preocupação para os profissionais de saúde e a população em geral: um surto de gripe causado pelo Influenzavírus H3N2 em várias cidades brasileiras, após uma epidemia no Rio de Janeiro, no final de novembro.

A influenza ou gripe é uma infecção dos pulmões e das vias aéreas provocada por vírus pertencentes ao grupo dos influenzavirus.

O H3N2, especificamente, é um vírus já bem conhecido pela comunidade científica desde 1968, quando foi responsável pela pandemia da gripe de Hong Kong. O vírus sofreu uma nova mutação na Austrália e a cepa foi chamada de Darwin, nome da cidade australiana onde ela foi sequenciada.

Mas quem é o H3N2? Assim como o H1N1, é um subtipo de influenzavírus A e um dos principais responsáveis pela gripe comum e pelos resfriados.

São conhecidos 4 tipos de vírus Influenza: A, B, C e D. Os do tipo A e B são os principais responsáveis por epidemias sazonais ao redor do mundo, principalmente no inverno; já o tipo C causa infecções mais brandas. O Influenza D foi identificado em 2011 e isolado nos EUA em suínos e bovinos e, até o momento, não há notificação por causar doenças em humanos.

Os influenzavírus tipo A são ainda divididos em subtipos, como o A(H1N1) e o A(H3N2). As letras H e N representam duas proteínas de superfície essenciais para a infecção do vírus: a hemaglutinina (H) e a neuraminidase (N), e a diferença entre estes vírus está exatamente na composição destas proteínas. 

Atualmente, são descritos ao menos 18 subtipos de hemaglutininas e 11 de neuraminidases. O influenza A(H3N2), por exemplo, possui a hemaglutinina subtipo 3 e a neuraminidase subtipo 2.

O H3N2 é facilmente transmitido de pessoa para pessoa através de gotículas expelidas pela tosse, espirro ou fala da pessoa infectada. E os sintomas mais comuns são os característicos de uma gripe: febre, dor de garganta, tosse, secreção nasal excessiva, dor de cabeça e no corpo, prostração e mal-estar intenso. Pode ocorrer também vômito e diarreia. Em geral, o doente desenvolve um quadro muito agudo e súbito.

Os vírus influenza são mais frequentes em idosos e crianças e, por isso, estes grupos são considerados prioritários na campanha de vacinação contra gripe, assim como imunocomprometidos, gestantes e portadores de doenças crônicas.

Como tratamento, repouso, ingestão de bastante líquido, alimentação leve e saudável. Dependendo do quadro, o médico pode receitar um antiviral específico (normalmente o oseltamivir) e medicamentos que aliviem os sintomas de febre, dor e mal-estar. Há casos de agravamento da doença com necessidade de internação e até morte.

Por ser um vírus respiratório, a prevenção é semelhante à da covid: higiene constante das mãos, distanciamento físico da pessoa infectada, uso de máscara (ou etiqueta respiratória), evitar ambientes com aglomerações, manter os ambientes ventilados.

Mas a melhor forma de prevenção e controle da transmissão viral é através da vacina, disponibilizada anualmente durante uma campanha nacional.

Esse grupo de vírus apresenta uma característica sazonal, com predomínio de circulação nos meses de outono e inverno. O surto atual está ocorrendo em um momento atípico e talvez esteja relacionado com a flexibilização das medidas de restrição de proteção contra a covid-19 (porque no inverno, a maioria ainda usava máscara) junto à baixa cobertura vacinal contra a gripe, uma vez que as campanhas estavam focadas na vacinação para o novo coronavírus.

No entanto, é importante ressaltar que a vacina contra a gripe atual não confere proteção completa contra o subtipo específico de H3N2 circulante no Brasil atualmente, a variante Darwin. As vacinas contra a gripe são atualizadas anualmente. E como isso funciona?

As epidemias são, normalmente, provocadas por variantes de 2 subtipos do tipo A (H1N1 e H3N2) e por uma das linhagens do tipo B (Victoria ou Yagamata).

A Organização Mundial de Saúde (OMS) realiza reuniões 2 vezes ao ano, com um grupo consultivo de especialistas, para definir a composição das vacinas que serão aplicadas nas temporadas seguintes de Influenza. Estas reuniões acontecem entre os meses de fevereiro e março para definirem as diretrizes para o hemisfério Norte e, em setembro, para o hemisfério Sul.

Nestes encontros são analisados dados de vigilância produzidos pelos Centros Nacionais de Influenza (NICs, em inglês), além das características genéticas dos vírus, semelhanças e diferenças entre as cepas circulantes nos diferentes países, resistência aos antivirais e resultados de eficácia da vacina. Ao final de todas as análises, a OMS então emite a recomendação das cepas que devem compor a vacina para a campanha do ano seguinte.

Para 2021, a OMS recomendou a inclusão das variantes de Influenza A/Victoria/2570/2019 (H1N1), Influenza A/Hong Kong/2671/2019 (H3N2) e Influenza B/Washington/02/2019 (linhagem B/Victoria).

Neste ano, a OMS definiu que as vacinas para 2022 devem conter as cepas: Influenza A/Victoria/2570/2019 (H1N1), Influenza A/Darwin/9/2021 (H3N2) e Influenza B/Austria/1359417/2021 (linhagem B/Victoria). 

As vacinas quadrivalentes ou tetravalentes, ou seja, que contam com 4 cepas de influenza, possuem a mesma composição acrescida da linhagem B/Yagamata. Neste ano, foi usada a Phuket/3073/2013.

Essa composição múltipla de uma vacina tem como objetivo ampliar a proteção da população, induzindo nosso sistema imunológico a produzir anticorpos contra a maior variedade possível de vírus influenza. Mas, como são altamente mutáveis e a cepa dominante em circulação pode variar de um ano para o outro, sua composição é atualizada anualmente. 

Apesar de a cepa Darwin não estar presente na vacina deste ano, esta talvez confira uma imunidade cruzada parcial, conferindo uma menor probabilidade de desenvolver quadros graves para quem se vacinou contra a gripe em 2021.

O H3N2 Darwin começou a circular com mais intensidade também no hemisfério Norte nos últimos meses, o que permitiu que a OMS já tivesse recomendado, em setembro, a inclusão desta cepa nas produções das vacinas contra influenza para 2022 no hemisfério Sul.

No Brasil, as campanhas nacionais de vacinação contra a gripe têm início em abril, antecipando a chegada do inverno. Mas uma possível antecipação pode ser avaliada de acordo com a evolução do cenário epidemiológico da doença nas próximas semanas. 

O Instituto Butantan, responsável pela produção das vacinas contra a gripe disponibilizadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS), já comunicou que os imunizantes atualizados começarão a ser fabricados no próximo mês.

Importante ressaltar que uma cobertura vacinal ampla é a forma mais eficaz de quebrar a cadeia de transmissão do vírus e conter o avanço de casos da doença. 

Vacinas salvam vidas e não é diferente com a Influenza. Vacine-se!!

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