Culpa

culpa


Quando o domingo começou, preguiçoso e outonal, eu já havia reservado o horário para me dedicar à escrita e à leitura. Mas também queria assistir ao documentário do Andy Warhol e estudar um pouco. E tinha os afazeres de casa: ir ao mercado, fazer o almoço, trocar a areia dos gatos e lavar a louça, que, embora pouca, já fazia aniversário na pia. culpa

Minha mente funciona melhor com programação prévia. Não lido bem com improvisos, atropelos e mudanças de rota repentinas. E nem com berinjela quente, só pra constar. A textura me dá náuseas. 

E, como eu disse, como em todo domingo que se preza, a preguiça sambava majestosa sob o solzinho gostoso de outono. Até pensei em sair pra pedalar, mas desisti quando começou Vingadores na tevê. Recusei propostas de praia, choppinho no quiosque e almoço com samba. Era decididamente o meu domingo de preguiça, leitura e escrita. 

E culpa.

Agora vou precisar de um negroni.

Pronto. Seguimos. 

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Culpa, porque assim como não lido bem com falta de programação, lido pior ainda com o fato de não cumprir o que me propus. E pra um domingo de outono em casa, tendo recusado convites normalmente irrecusáveis, o mínimo que eu esperava de mim eram duas ou três crônicas escritas, além de ter devorado Clarice, Bukowski e Veríssimo. Pra que a noite eu me servisse de Andy Warhol e de uma das aulas atrasadas do meu curso de escrita afetiva. 

São oito da noite e o que eu tenho até agora são essas parcas linhas de um desabafo, que está longe das crônicas que eu gostaria de ter escrito. Ah, e tenho Clarice, o bêbado do Bukowski e Veríssimo repousando ao meu lado, um sobre o outro, esperando que eu os despose. 

Normalmente, é assim: sempre que eu programo meia dúzia de coisas pra um dia que era pra ser de preguiça, acabo num texto forçado e desconexo, uma dose de negroni e uma outra de culpa. Uma boa dose de culpa. 

Me resta não criar mais expectativas sobre domingos de outono e tampouco empilhar autores numa tentativa de pressionar a mim mesmo. Porque, no final, o que fica é a culpa, um copo vazio cheirando a vermute e mais uma sessão de terapia.

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Diego Brígido
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