Enquanto houver flores, feira e altares

Enquanto houver flores feira e altares

A feira pertinho de casa é no domingo, mas somente às terças e sextas encontro a barraca de flores que parecem chegar de um jardim encantado diretamente para maravilhar meus olhos. Então, me joguei pra lá numa dessas sextas, mesmo com a coluna lombar e o coronavírus dizendo “fica em casa!”. Põe máscara, respira fundo, chama o Uber, passa o álcool e mais álcool, vai quase levitando no banco do carro só pra não encostar em nada, e vence todos os medos que a feira está logo ali.

De longe, avisto aquilo tudo, cores e perfumes se exibindo sem dar a menor bola para os peixes da barraca ao lado, tadinhos com aquele cheiro que só peixe tem. Fazer o quê? A natureza é assim, dando a cada habitante da Terra uma missão a cumprir. A missão dos lisiantos, das gérberas, das rosas, dos cravos e cravínias, das astromélias, angélicas e dálias, daquelas que eu chamo de branquinhas ou mosquitinhos e todas as suas primas e primos da banca de flores… Ah! a missão deles é chamar para a vida, com todo seu esplendor e diversidade, com suas diferenças e singularidades, e com a humildade de quem é majestade mesmo quando se põe ao lado de peixes adormecidos.

Distribuir as flores nos vasos, com arte e equilíbrio, não é coisa que eu saiba fazer. Faço melhor a combinação de palavras, pontos, vírgulas e ideias, como as que se espicham nesse texto que ainda não sei onde vai parar. Com flores, vasos e altares só sei lidar com amor. Mais ainda nesses tempos de pandemia, em que ao amor agrego saudade dos que me sorriem dos porta-retratos. Meus miúdos lá longe, com seus cabelos de caracóis e as covinhas que herdaram do pai, ocupam lugar de honra nos altares aqui de casa. Ficam bem do ladinho de símbolos do sagrado que povoam meu mundo, minhas crenças, minhas conversas com Deus. Os miúdos, seu papai e sua mamãe, os que vieram antes de mim, os santos, a velinha acesa… e as flores na harmonia singular dos meus arranjos.

A cada vasinho ajeitado entre os sorrisos dos meninos e as bênçãos do sagrado, digo que estamos todos felizes pela companhia que as flores passam a fazer, dia e noite nesses tempos em que orar é preciso. Em que a beleza é fundamental, em que a Criação promete um amanhã, em que gratidão é vitamina de A a Z, em que a fé se confirma como medida preventiva para todos os males. Os da alma, os do corpo, os do mundo insano, os do narcisismo que cria muralhas entre homens, flores e peixes. 

Depois de deixar cada um na sua neste santuário que é a minha casa, tudo junto e pacificamente misturado, tenho que voltar ao mundo da rua, do Uber, do álcool gel, da máscara e da levitação. Tenho coisas para fazer, do tipo que não vai esperar a pandemia passar. Exames médicos, por exemplo. Apesar dos cuidados tomados pelos gestores de clínicas e consultórios, duvido que alguém entre tranquilo em qualquer ambiente público, onde o vírus pode estar circulando, bem maroto e sem máscara, dando uma banana para os cuidadosos e os desavisados, duas categorias que desenvolveram seus protocolos próprios e seguem driblando os riscos como numa disputa por pênaltis de uma final de Copa do Mundo.

Não tenho que falar de futebol. Não é minha praia. Foi só uma ideia que me ocorreu entre tantas que a pandemia desperta. O que mais tenho feito é conversar comigo. Às vezes, de forma amigável, mas esse dois personagens (eu-comigo) já tiveram maratonas de pura tensão, de viagens ao redor do meu quarto, de negociação entre pedir a pizza ou puxar o congelado de macarrão de pupunha, saudável e insuficiente para aplacar os desejos de um mundo melhor. Um mundo melhor pode estar representado por uma redonda com muito queijo.

Ou um mundo melhor pode ser a volta para casa e ser recebida com o exagero das angélicas que, em perfume, batem todas as flores do jardim plantado nos meus altares. A sensação ao entrar em casa não foi a da urgência de limpeza imediata. Não. Dei-me uma respiração profunda e, por um instante, parei e me deixei abraçar pelas novas habitantes do meu universo particular, construído por mim, pela minha necessidade de estar com os que amo, com o que amo, comigo mesma. É na minha companhia que passei todos os dias da vida e todos os que ainda viverei. Com ou seu pandemia, eu mereço estar também no altar onde moram as flores, os santos, os miúdos, o antes e o depois, o sempre, o eterno. 

Vera Leon
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Maria Regina
Maria Regina
1 mês atrás

Vera Vera ! Que talento em se colocar perante as coisas simples da vida e que fazem nosso cotidiano . Adorei saber que vc reverência e homenageia as flores !
vou copiar seu ritual . Obrigada por sempre nos presentear . Bjs
Regina

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