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Fugi de uma roubada no Orquidário

Diego Brígido

Por Diego Brígido

Orquidário


Marcamos em frente ao pau-rei, às nove, daquela terça que apesar de outonal, prometia ser quente. O pau-rei era a árvore mais alta do parque, com mais de trinta metros de altura, majestosa entre as centenas de vizinhas de variadas espécies. 

Está logo na entrada e pode ser avistada lá daquela rua do canalzinho que dá acesso ao Orquidário. Rua gostosinha e também arborizada, aquela cujo nome agora me falta. Então, mesmo pra quem nunca tinha ido ao reduto verde queridinho dos santistas, bastava avistar, da rua, o pau-rei. Lá estaria eu, impávido, ansioso. De chinelos, como todo santista que se preze.

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Só ao cruzar o pipoqueiro, na entrada do parque, faltando quinze para as abafadas nove, me dei conta “como podia alguém com mais de trinta, tendo vivido em Santos desde que veio ao mundo, nunca ter pisado no Orquidário?” Como sobreviver a uma infância sem esperar com a boca suja de pipoca doce o pavão abrir a cauda? Sem correr pelas alamedas frescas atrás das cutias, sem roubar moedas da fonte com a Ninfa odiada pelas carolas da Santos de outrora? 

O Orquidário está lá, no mesmo lugar, vizinho do bairro mais santista de todos, o Marapé, desde 1945, um pulmão gigante na cidade, pô! 

Como pode uma criatura que se diz santista nunca ter tido a curiosidade de saber para onde vão as garças brancas no fim do dia, depois de cumprirem sua função de atrair turistas para o mercado de peixes? Pro Orquidário, oras! É no lago do parque que elas encontram o refúgio seguro, para o sono da altivez. 

Pobre santista com pais, ou seja lá quem criou, que não proporcionaram um dia de combo Orquidário e Aquário. Que criatura era aquela que nunca jogou pipoca pros macacos e não correu atrás das borboletas?

Orquidário

Já se faziam cinco para as nove, nem a sombra do pau-rei e dos vizinhos pau-brasil, urucum e que tais impediam o suor de me escorrer pela nuca, testa e panturrilhas. No parque devia fazer uns 30 graus, lá fora, uns 40. Dentro de mim, não mais que gélidos 10 graus.  

Naqueles eternos dez minutos de espera, já haviam desfilado por mim o pavão, que nem é tão atraente pela manhã, uma família de cutias meio desengonçadas, um cágado que carregava uma saracura preguiçosa no casco e uma criança eufórica procurando pelo leão. Pobrezinha, pensei, essa foi enganada pelos pais, ou os pais se confundiram de parque. E de cidade, inclusive. 

Orquidário

Mas, melhor frustrada no Orquidário que viver trinta e poucos sem gritar ‘arara, arara’ no viveiro multicolorido do parque. A essa altura, a raiva já tomava o lugar da ansiedade e a vontade era de escalar o pau-rei até a coroa pra sumir da vista. 

Não podia ter bom caráter alguém que não conhecia o Orquidário. Um parque com 76 anos de idade, um éden em meio ao caos, ser assim ignorado. Já se viu! Faltando um minuto pras nove segui meus instintos e corri, meio atabalhoado, como todo bom santista de chinelos, mas corri. Me escondi lá pros lados da trilha do mel. Alguém que sequer conhecia o parque, jamais encontraria a trilha. 

Fiquei lá por uma hora pra garantir que não cruzaria com a criatura mau caráter e, então, parti. Mas, antes, joguei uma moedinha pra Ninfa mal falada e deletei o tal nome da minha agenda. Onde já se viu…

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