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JOÃO DO BARRO, O ESPÍRITO SANTO, AMÉM…

Inês Bari

Por Inês Bari

João do Barro


Meu irmão já havia me contado sobre a beleza rústica e singela das praias de Meaipe e das águas geladas de Guarapari. Fora isso, só mesmo a certeza de que Cachoeiro do Itapemirim era a cidade onde tinha nascido Roberto Carlos. Mas, visitar e conhecer o Espírito Santo foi bem mais que isso.

Mais do que as praias de castanheiras e da moqueca com bananas emborcadas em molho de tomate e sem dendê, como eles insistem em ressaltar. O ponto alto da viagem às terras capixabas foi, sem dúvida, o encontro  com o inesquecível homem que fazia peças e panelas de barro.

São vários os vendedores que ficam na beira da estrada. Mas decidimos parar no “João do Barro”. Nome sugestivo. Descemos…

Logo surgiu aquele homem rústico de chinelos de dedo e roupa encardida, da cor do barro. Sorriu de maneira simpática e nos mostrou suas panelas, ressaltando que aquelas eram “as legítimas” e não as panelas das rendeiras, que racham com facilidade, afinal, tinham sido os nordestinos como ele que haviam trazido a técnica para o local.

Diante do nosso interesse e da descoberta que um de nós era jornalista, o homem propôs que acompanhássemos a destruição de um dos fornos que já estava pronto para ser aberto, para ver como queimavam as panelas.

Curiosos e fascinados, fomos adentrando o fundo da fábrica artesanal e o cheiro forte de fumaça e carvão invadindo nossas narinas, roupas e cabelos. 

O calor era absurdo. O homem, com uma escada comum e pequena, subiu no forno altamente aquecido, retirando a tampa da fornalha com uma marretada. Depois, com outra martelada derrubou a parede lateral, onde já se podiam ver as panelas pretinhas e amontoadas, soltando fumaça e calor. Era tudo muito simples para ele. E, a cada pancada no forno, as fagulhas se soltavam, passando muito próximas aos seus pés, naqueles chinelos de dedo sem proteção. Mas o João continuava falante, explicando o procedimento com orgulho, maestria e com sua macheza nordestina diante de nossos olhos estarrecidos.

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Depois da exibição bruta e inacreditável de abrir fornos, o homem nos levou para outro canto da rústica fábrica artesanal.

– “Agora, vou mostrar como faço para modelar as peças de barro…”

Foi aí, que de repente, aquele ser rude, mal vestido e cheirando a fumaça, sentou-se diante de um prato giratório e começou a delinear suavemente em um bloco informe de barro, com suas mãos grossas e carcomidas, mas com a leveza de uma pluma e a delicadeza da Demi Moore no filme Ghost. Deu vida, ali, em segundos, a um lindo pote com alças, com direito a um  risco com a unha do dedo mínimo, finalizando a parte que faltava, na tampinha do pote.

Assim ficou gravada a cena na minha memória. O rústico e delicado. Unidos e ungidos. No homem que fazia potes, e o seu Espírito Santo, amém!   

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