No fundo da gaveta

Inês Bari

Por Inês Bari

gaveta


Eu procurava minha bandana. Lembro de ter guardado naquela gaveta. Não era original, mas parecia a da Janes Joplin, em Woodstock. E servia, com uma pitada de rebeldia, na minha fantasia…

Mas, o achado mais devastador foi o interior daquela gaveta esquecida. Aquela do meio do armário. Que eu abria só até a metade. E à bem da verdade, eu via somente a parte da frente. Onde estavam as meias de seda que eu usava nos invernos gelados. Todas, com um fiozinho puxado. 

Fui abrindo a gaveta com cuidado e mãos meio frias. Parecia um movimento interno. Peristáltico. Uma espécie de bulimia. Trazendo de volta coisas não digeridas. Peças guardadas com datas vencidas. Muito bem escondidas… 

Depois das meias, saltaram três sabonetes. Devem ter sido sachês perfumados. Ganhei do namorado. Seriam verdes ou azulados? Agora eram translúcidos, inodoros e amassados. 

 Mais no fundo, encontrei uma luva. Minúscula. Mal cabia em meu dedo mindinho. Devia ter uns cinco aninhos quando ganhei da minha tia. Estava lá. Com seus dedinhos de sono e incontáveis anos de abandono… 

No final, as lingeries. Duas cintas-ligas! Nunca usei. Uma violeta. Outra cinza! Os botões não fechavam. Tirei rapidamente da gaveta e estavam grudadas em um corpete. Bonito. De renda preta. Ainda na moda. Se eu usasse. Se eu soubesse que tinha. Se eu lembrasse da gaveta… 

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Eu nem sabia mais o que procurava. Achei uma faixa azul bacana. Poderia servir, ao invés da bandana… Mas foi no fim da gaveta, a ironia. Uma peteca de penas coloridas. E na base almofadada, um bichinho sorrindo com a frase: bem-vinda!  

Era, atrás das fantasias, a minha criança, lá no fundo, escondida. 

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