O boné, o álbum e a TV

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Ele era azul, simples, sem nenhum grande adorno. Mas trazia a marca do Banco Nacional. E a assinatura dele, Ayrton Senna. Meu pai era correntista do referido banco, já extinto, e me deu de presente um modelo semelhante ao usado pelo piloto de Fórmula 1. Nos anos de primário, usava como forma de ganhar status entre os demais alunos. Nem sempre adiantava, mas me sentia um “Senninha”.

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Na mesma época, a Multi Editora lançava álbuns sobre as temporadas da principal categoria do automobilismo mundial. Eram três brasileiros: Senna, Nelson Piquet e Maurício Gugelmin. Entre as fotos das Osellas e Minardis que vinham aos montes nos pacotinhos, conseguir uma foto de Senna não era algo tão fácil. Custei a tê-la no livro ilustrado.

Enquanto isso, o paulistano conseguia seu primeiro título mundial, em 1988, e motivava discussões acaloradas entre os fãs de Piquet e Senna. Quem era melhor? Opostos em tudo, mantinham o País em evidência no “circo” – haja vista que, desde 1991, o Brasil não sabe o que é ter um campeão mundial de F1. 

No início dos anos 1990, a TV Globo, que transmitia as corridas, passou a exibir também os treinos classificatórios de sábado, que definiam o grid de largada. Eu, então, transformei meu caderno em um computador e anotava cada tempo feito pelos pilotos. E resumia a formação do grid como se costurasse um boletim informativo – seria um instinto jornalístico precoce? Talvez. Mas também admiração pelo tricampeão Senna. O Tema da Vitória fazia parte da trilha sonora dos domingos, tão tradicional quanto uma boa macarronada com carne assada da avó.

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Naquele domingo, 1º de maio de 1994, não teve almoço na casa da avó. Em casa, sentado a poucos centímetros da TV – sim, eu era assim – acompanhava o GP de San Marino, ainda assustado com os fatos daqueles dias, como o acidente com Rubens Barrichello e a morte na pista do austríaco Roland Ratzemberger. Não senti premonição alguma sobre o que aconteceria dali alguns instantes. Mas o clima era pesado demais, carregado demais, contrastando com o sol daquele Dia do Trabalho. 

A curva Tamburello tratou de encerrar aquele caso de amor de infância com aquela Fórmula 1. E com as manhãs de domingo por um longo período. Na esperança de uma reviravolta no quadro clínico de Senna, vi meu pai chorar e bradar contra a “ganância” dos donos do espetáculo. Doeu em mim. O domingo terminou ali, com o anúncio da morte de um jovem piloto de 34 anos que tinha, ainda, condições de dar novas conquistas ao País. 

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Os dias seguintes eram de perplexidade, choro e saudade. Não fui à Assembleia Legislativa de SP me despedir de Ayrton –nem dava, só tinha 14 anos. Mas, ao devorar revistas e jornais com memórias do piloto, me senti parte daquele processo de luto coletivo. E uma arte, feita pelo genial Elifas Andreato, que morreu recentemente, me marcou naqueles exemplares de revista. Uma lágrima com as cores do Brasil e a frase “A Deus, Senna” sintetizava tudo. Há 28 anos, o boné, o álbum e a TV se fundiram para sempre na memória de quem era um simples fã.

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Anderson Firmino
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