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País do Carnaval… sem Carnaval

Helena Fraga

Por Helena Fraga

carnaval


Adoro e sempre gostei demais de carnaval. Fazia um sentido especial em minha vida… não exatamente pagão, mas, um antecessor aos dias de quaresma e de recolhimento. 

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Desde muito pequena eu tenho lembranças das matinês no Clube Vasco da Gama onde minha mãe levava meu irmão e eu para a folia. Junto conosco ia Dona Irene e minhas amiguinhas de infância, Vera e Alice.

Os tempos eram outros e as crianças não corriam perigo. Pulávamos a tarde toda e chegávamos em casa suados, com os pés em carvão e com pequeninos confetes espalhados pelo corpo. Posso afirmar, com certeza, que aos domingos e terças do tempo de Momo dormíamos como anjinhos pela exaustão de tanto brincar.

Os anos passaram e o formato também. Jovem, lembro-me com saudade de dois ou três anos que fomos em um grupo de amigas para a folia em outra cidade. Monte Alto – terra da fábrica da CICA e de tantos amores perdidos nos bailes do clube da cidade. 

Hospedávamo-nos na casa da tia Janete, mãe do Luciano e da Sonia, família amiga da Monica. Chegávamos de ônibus na noite de sexta-feira e voltávamos na terça-feira após o meio-dia.

Quatro dias de convivência e de delícias. Pão feito em casa com manteiga derretendo. Leite que vinha das fazendas ao redor e um café fresquinho e cheiroso que nos aguardava quando chegávamos como colombinas e pierrôs cansados e com sono.

Era romântico. Havia serpentina, confete, lança-perfume escondido e olhares sorrateiros pelo salão. Os amores duravam uma noite ou alguns beijos inocentes. As promessas de reencontro no próximo ano ou troca de telefones no alvorecer da Quarta-feira de Cinzas. Nenhum desses grandes amores vingou, mas, as lembranças povoam e aquecem o coração.

Depois, o mundo mudou e o carnaval também. Vieram os desfiles, os trios elétricos, o carnaval de rua e os filhos pequenos. Os clubes deixaram de ser o foco e as marchinhas inocentemente picantes deram lugar a outros ritmos. A segurança também mudou de rosto e tudo transformou-se, mas não com menos cor, confete e serpentina.

Todo ano tirava mini férias no carnaval para demonstrar meu amor pela data; passamos vários anos em Águas de Lindoia. Eram os dias de comprar fantasias novas e ir até a rua principal para uma batalha de confete ou um banho de água. O caminhão de som tocava músicas referentes à data e nosso trio admirava extasiado o pequeno desfile dos blocos da cidade.

Em minhas memórias as cenas desse tempo são vivas e remetem a aventuras singelas, como conhecer o Sambódromo com outra amiga querida e apaixonada por Momo – a Teresa Cristina – ou ainda quando passei todos os dias estudando para o exame de mestrado.

Nos últimos anos optamos por ficar em casa… mas era sagrada a hora de assistir pela televisão às escolas desfilando em São Paulo, no Rio de Janeiro e em Santos. Menos glamour e mais aconchego. Menos confete e mais silêncio. Menos bagunça e mais cuidado.

O carnaval de 2020 trouxe-me muitas reflexões. A avenida extrapolou alguns temas considerados sensíveis e que amargou a alma. Havia um vírus sorrateiro e fatal que transpôs sentimentos, sentidos e expôs um mundo meio sem limites. As fantasias adormecidas. As críticas contumazes e a fé escarnecida…

Ficam as memórias e o questionamento… Voltaremos a viver a alegria sem limite, retornaremos aos tempos saudáveis ou, simplesmente, a festa acabou?

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