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Tratamento precoce para covid-19: o que a ciência explica?

Érika Klann

Por Érika Klann

tratamento precoce


Diante de uma pandemia e seu número crescente de casos, internações e mortes, causada por uma doença até então desconhecida, é natural que a comunidade científica mundial recorra aos mais diversos tratamentos para curar as pessoas e controlar a crise sanitária.

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Não foi diferente com a Peste Negra, no século XIV, ou com a Gripe Espanhola, em 1918, quando não faltaram indicações de terapias milagrosas na tentativa de reverter o quadro pandêmico destas doenças que levaram à morte milhões de pessoas no mundo todo. 

E dentro do cenário de incertezas e explosão de novos casos de Covid-19, ainda temos, mesmo após mais de 1 ano de pandemia, a discussão sobre a indicação e uso de um tratamento precoce ou, como chamado aqui no Brasil, do “kit covid”.

No início da pandemia, parte da comunidade científica, de médicos e até das instituições reguladoras mundiais defenderam o uso de diversos medicamentos, já conhecidos para o tratamento de outras doenças, para combater o coronavírus e curar a Covid-19. 

Claro que seria mais do que oportuno e esperançoso encontrar uma medicação eficaz no controle da doença, mas diversos estudos científicos rigorosos ao redor do mundo não conseguiram ainda comprovar a eficácia desses medicamentos, juntos ou combinados; ao contrário, se mostraram até prejudiciais quando administrados nos quadros leves, moderados ou graves da doença. 

Nos últimos meses, as principais entidades de saúde nacionais e internacionais, como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), a Organização Mundial da Saúde (OMS), os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos e da Europa e a Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS), após uma falta de evidências científicas, se posicionaram contra a indicação de um tratamento precoce com o uso do coquetel de medicamentos – o kit covid – incluindo hidroxicloroquina (ou a cloroquina), azitromicina, ivermectina e nitazoxanida.

No Brasil, a Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) foi um dos primeiros órgãos a adotar uma postura firme contra o tratamento precoce, enfatizando as poucas evidências científicas sobre os benefícios das medicações utilizadas no kit covid. Em 19 de janeiro deste ano, publicou: “As melhores evidências científicas demonstram que nenhuma medicação tem eficácia na prevenção ou no ‘tratamento precoce’ para a covid-19 até o presente momento”. A Associação Médica Brasileira (AMB) reforça esse discurso.

Inúmeras pesquisas nesse campo continuam sendo realizadas, mas, até o momento, não há tratamento medicamentoso que comprovadamente previna ou cure a Covid-19, principalmente aqueles oferecidos nas fases iniciais da doença.

Mas antes de conversarmos melhor sobre esse assunto, vamos definir o que é esse tratamento precoce, e que é muito diferente de atendimento precoce. Este último refere-se a uma análise dos sintomas desde os primeiros sinais, com um acompanhamento da evolução da doença e possível intervenção medicamentosa ou de internação, se necessário. 

Um tratamento precoce tem a finalidade de diminuir as chances de desenvolver as formas mais graves da doença. No caso da Covid-19, esse tratamento que está sendo chamado de precoce se dá através do uso de um coquetel de alguns medicamentos que, no início da pandemia, acreditou-se intervir no curso da doença quando administrado logo nos primeiros sintomas ou quando, mesmo com ausência de sintomas, a pessoa tivesse contato próximo com algum caso comprovadamente positivo. Alguns desses medicamentos são utilizados, inclusive, como preventivos.

É importante entendermos como surge um novo medicamento ou como reaproveitamos os que já existem. Vou tentar explicar de forma simplificada.

Normalmente, o início de tudo começa com a chamada pesquisa básica, em que cientistas pesquisam moléculas ou compostos, suas características e potenciais de uso farmacológico/terapêutico. Estas substâncias são, então, testadas em laboratórios, em diferentes tipos de células e em diferentes concentrações. Se alguns desses compostos corresponder às expectativas de ação dentro de um sistema biológico simples, passam, então, para os testes em cobaias animais, como camundongos, coelhos, macacos ou outros animais que apresentem características semelhantes ao ser humano (fase pré-clínica). Tendo os cientistas bons resultados, o composto passa para a fase de testes clínicos, onde a testagem será em humanos. Os testes clínicos são divididos em 3 etapas, rigidamente controladas, para avaliar a segurança, efeitos colaterais, imunogenicidade e eficácia da medicação candidata.

Esta última etapa dos testes clínicos, a mais rígida e ampla, trabalha com 2 grupos de voluntários: um que receberá o medicamento em teste e outro grupo que servirá de controle e receberá o chamado placebo (substância sem nenhum efeito no organismo). Em alguns casos, o placebo é substituído pelo melhor tratamento até então para aquela doença. No ensaio clínico ideal, nem os cientistas nem os voluntários sabem quem pertence a qual grupo. Os resultados são, finalmente, comparados para entender se o medicamento apresentou um efeito significativamente melhor do que o grupo controle.

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Esse é o esquema de um estudo randomizado (os voluntários são sorteados para participar de um ou outro grupo), duplo cego (cientistas e voluntários não sabem quem tomou o quê) e controlado (existe um grupo controle), considerado o padrão-ouro de uma pesquisa.

Os resultados e todo o procedimento são publicados em um jornal ou revista científica, em que passarão por uma revisão de especialistas independentes. E aí sim, caso aprovados, são disponibilizados mundialmente. Os cientistas responsáveis pelo novo medicamento podem solicitar aprovação do novo medicamento às agências regulatórias, como a Anvisa (no Brasil) e o FDA (nos Estados Unidos), que farão a análise de todo o processo.

Este procedimento padrão exige mais de uma década de testes e análises, o que é inviável esperar em uma situação de pandemia, onde milhares de vidas são perdidas. Uma alternativa usada é o chamado reposicionamento de fármacos, onde medicações já existentes e aprovadas para tratar outras doenças são testadas para aquela em específico. Um processo de seleção inicial é feito em culturas de células. Os remédios que apresentam algum potencial seguem até os estudos randomizados, duplo cegos e controlados explicados logo acima. A grande vantagem do reposicionamento é que o produto ativo já foi aprovado por agências regulatórias, o que significa que se mostrou relativamente seguro ao homem.

E foi na esperança de encontrar algum fármaco já aprovado que pudesse combater a Covid-19 que a comunidade científica no mundo inteiro correu para testar inúmeros produtos farmacêuticos, no início do ano passado.

Foi neste cenário que a hidroxicloroquina, azitromicina, ivermectina e tantas outras medicações entraram na história desta pandemia como salvadoras.

A partir do meio do ano, no entanto, os estudos já realizados começaram a ser contestados por suas metodologias como, por exemplo, um número muito pequeno de pacientes ou uso de uma dosagem muito alta e tóxica ao homem. Ao mesmo tempo, outros tantos estudos, mais robustos, mostravam que essas medicações não tinham um efeito satisfatório comprovado ou não produziam nenhum efeito em qualquer estágio da doença, seja no início dos sintomas ou em UTI. Mais do que isso, muitos estudos associaram essas medicações a efeitos adversos nos pacientes covid-positivos. 

A hidroxicloroquina, por exemplo, está associada a um maior risco para arritmia, retinopatias, hipoglicemia grave, lesão no fígado e toxicidade cardíaca. A farmacêutica norte-americana MSD (Merck Sharp and Dohme), fabricante da ivermectina, publicou, em fevereiro deste ano, um comunicado que não indica o uso deste medicamento para tratamento contra a covid, pois não há evidências de que o composto traga benefícios ou seja eficaz no tratamento.

Segundo o Painel de Notificações de Farmacovigilância da Anvisa, de março de 2020 até 5 de abril deste ano, 962 reações adversas foram notificadas em pacientes que usaram os medicamentos do kit covid, 11 morreram e 146 tiveram reações graves.

A estratégia de reposicionamento de fármacos contra a covid-19 rendeu algumas vitórias, como o antiviral remdesivir, o primeiro medicamento aprovado pela Anvisa para tratamento contra a doença e, até o momento, o único remédio que terá em sua bula a recomendação para este fim. E, neste 20 de abril, a Anvisa autoriza um segundo medicamento para o tratamento anticovid, como uso emergencial. É o coquetel Regn-CoV2, uma combinação de 2 anticorpos monoclonais, os casirivimabe e imdevimabe. Enquanto o remdesivir é utilizado em casos em que há agravamento da doença, o Regn-CoV2 é indicado para pacientes que não precisam de suplementação de oxigênio. A dexametasona (corticoide) também se mostrou eficaz nos casos que precisam de internação, diminuindo a pane inflamatória que ocorre em alguns quadros mais graves, mas são utilizados segundo critérios muito bem estabelecidos. Importante lembrar que estas medicações não são usadas como tratamento precoce ou preventivo e, muito menos, para ser utilizado sem receita médica. 

Deve-se ficar claro que o uso indiscriminado de qualquer medicamento leva a consequências negativas. No caso específico do kit covid, podem causar efeitos colaterais importantes, além da falsa sensação de proteção contra a doença, relaxando nas medidas protetivas. Uma preocupação específica com a azitromicina, antibiótico usado em infecções bacterianas importantes como a pneumonia, é porque o seu uso indiscriminado pode acelerar o processo de resistência das bactérias ao medicamento, tornando o tratamento antibacteriano ineficaz. 

Desde o início, a pandemia nos mostrou que cerca de 80% das pessoas infectadas pelo novo coronavírus apresentam sintomas leves, que diminuem em poucos dias, ou são assintomáticas, independente de qualquer tratamento. Dessa forma, esses medicamentos podem estar recebendo um crédito de benefícios que não é real; foi apenas o curso natural da doença. 

E por que muitos médicos ainda receitam o kit covid, você deve se perguntar? De verdade, eu não saberia responder… Talvez seja a urgente esperança em se agarrar a alguma possibilidade, que ele ainda acredita, de salvar vidas…

Mas vale ressaltar que a ciência está em constante evolução e transformação e as verdades podem ser provisórias. Ou seja, daqui um tempo, podem surgir trabalhos que comprovem a eficácia e a segurança de algum destes medicamentos como um tratamento precoce. Muitas pesquisas continuam sendo realizadas neste sentido. E continuamos estudando alguns tratamentos promissores, como uso de plasma convalescente, terapia de anticorpos monoclonais, uso do anti-inflamatório colchicina, infusões de células-tronco e outros medicamentos com potencial terapêutico para covid.

Mas enquanto não chegam melhores notícias sobre novos tratamentos e medicações eficazes e seguras contra a infecção pelo Sars-CoV-2, vamos seguir com o que sabemos ser eficiente para não contrair o vírus e controlar a pandemia: uso de máscaras, distanciamento físico, lavagem frequente das mãos e uso de álcool em gel.

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