O sorriso do craque

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 Em outubro de 2009, fui escolhido por Carlos Conde, então editor-chefe de A Tribuna, para fazer uma espécie de perfil do craque Coutinho, integrante do ataque mágico dos anos 1960 do Santos, bicampeão da Libertadores e do Mundial em 1962 e 1963.

Fiquei preocupado. Meus contatos com Coutinho, geralmente por telefone, eram quase que telegráficos. Conversar com o Flash talvez fosse mais devagar. Como geralmente eram perguntas sobre o futebol atual ou comparações entre o que se joga hoje e nos tempos dele, isso fatalmente não o agradava e as respostas eram quase que resmungões.

Como Coutinho dava aulas no Sesi, localizado no Jardim Casqueiro, em Cubatão, a ideia era ir até lá e conversar com ele. Fui com o fotógrafo Alberto Marques, caso a memória não me falhe. O registro principal da página teria que ser o do ex-atacante dando instruções para a meninada no campo de futebol.

A ideia da foto, porém, foi abortada logo de cara, naquela manhã de, se não me engano, quarta-feira. O motivo era a chuva que caiu – e seguia desabando do céu. O jeito era garantir as “carinhas” do personagem, como costuma se dizer no jornalismo. E que personagem!

Perguntei a Coutinho a respeito de passagens de sua carreira, desde sua precoce chegada ao Santos (estreou com 15 anos nos profissionais), passando pelo porquê de Coutinho, pois ele não tem esse sobrenome (obra da mãe, que o chamava de Cotinho e, já no Peixe, veio a vogal e o respeito), de ter de jogar à noite nos primeiros tempos de futebol com autorização do juizado de menores e de quando, mesmo lesionado, fez os três gols de uma vitória sobre o Corinthians.

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O papo fluiu e me surpreendeu, em razão da preocupação inicial. Depois da entrevista com Coutinho, cheguei à conclusão que tudo tinha corrido bem porque o assunto era ele mesmo e o atacante costumava falar muito, digamos, dos outros. Não comentei isso com ele. Foi apenas algo que guardei comigo.

A matéria foi publicada em A Tribuna de 1º de novembro de 2009. Nela, Coutinho também comentou que a história de sua carreira seria incluída em um livro, com lançamento provável em dezembro daquele mesmo ano. No entanto, isso aconteceu apenas em 2012, com a publicação de Coutinho, o Gênio da Área, escrito por Carlos Fernando Schinner (Realejo Livros & Edições).

Coincidentemente, fui cobrir o lançamento da obra, realizada no Memorial das Conquistas do Santos. Dando autógrafos, estavam o autor e Coutinho, tão sorridente quanto nos tempos em que estraçalhava as defesas adversárias. E eu fiquei orgulhoso ao ver a bibliografia do livro e constatar que a matéria publicada em 2009, com o título O príncipe da Vila Belmiro, tinha sido usada como fonte de consulta. Uma alegria tão grande quanto a que ele e aquele grande time do Peixe proporcionaram para tanta gente. Coutinho morreu em março de 2019, mas ele já era eterno há muito tempo.

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Selma Cabral
5 meses atrás

Ted texto impecável como sempre! Cheio de recordações e saudades de um gênio do futebol santista. Parabéns!

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