Rafael Motta: Começa agora a montagem da retrospectiva de 2022

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A retrospectiva de um ano na política brasileira não depende da análise de crises, dos efeitos da pandemia na vida das pessoas nem do papel dos partidos políticos (ou do que têm deixado de cumprir, pois o significado das siglas da maioria deles não bate com o que pregam hoje). O resumo nacional, infelizmente, é simples: ganha mais quem paga mais. O Governo só não acabou porque você pagou a conta. Cargos para aliados, liberação de dinheiro, orçamento secreto. Dilma Rousseff jamais teria caído por “pedaladas fiscais”. Jair Bolsonaro continua, apesar do conjunto da obra.

Mas o fato político do ano, no sentido de diálogo e tentativa de entendimento, que mais deve ter chamado a atenção de quem se propõe a refletir sobre as relações partidárias foi o encontro recente entre o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o ex-governador Geraldo Alckmin (que deixou o PSDB há poucas semanas).

Antes de tudo, não é questão de torcida nem de simpatia, ou de repúdio e asco. Na pior hipótese, Lula, político que está no meio há quase cinco décadas e é conhecido pelo pragmatismo — ou seja, não se nega a conversar com um adversário, pois mesmo entre extremos opostos pode achar um meio-termo —, viu um nicho que a classe política sempre utilizou e foi esquecido: a conversa. Mais importante, a tentativa de dialogar em um ambiente que transformou opositores em inimigos para os quais a eliminação é o mínimo que se espera, quando comparado ao que se passou a desejar a eles.

Não apenas Lula tem esse poder e não só a ele caberia essa tarefa, mas o ex-presidente fez um movimento inicial que ganhou força porque ele tem lugar de destaque no ambiente político e se mantém relevante, mesmo após condenações judiciais anuladas e 580 dias de cadeia. Ele é procurado e ouvido fora do Brasil e, aqui, lidera com folga pesquisas eleitorais sobre os cenários de hoje; o ano que está chegando será outra coisa, outro mundo. Novamente, isto não é torcida, mas constatação e, se os fatos machucam os argumentos, os argumentos que procurem um médico.

O petista foi eleito presidente em 2002 tendo como vice o falecido empresário José Alencar. Como e quando o PT, tão radical e que declarava ser a pureza em meio ao lodo partidário, imaginaria uma aliança de “patrões” e “trabalhadores”? A maioria do eleitorado acreditou, e a ideia virou governo.

Em 1989, após ficar por pouco fora do segundo turno das primeiras eleições presidenciais após o fim da ditadura mais recente, Mario Covas, do PSDB, declarou apoio a Lula contra Fernando Collor de Mello. Foi uma escolha. Anular o voto ou marcar branco favorece quem não queremos.

PT e PSDB, parecidos na origem ideológica, tomaram caminhos opostos quando se tornaram as principais forças políticas nacionais. Fatores em sequência levaram ao que o Brasil se tornou politicamente: a postura do tucano Aécio Neves, ao questionar o resultado da eleição de 2014; movimentos sobre demandas sociais hoje abandonadas, como os 20 centavos na tarifa de ônibus, que serviram ao surgimento do MBL e o levaram a eleger deputados; o ativismo judicial de pessoas que apoiariam ou fariam parte do governo posterior e, agora, se apresentam como terceira via (Sergio Moro, ex-juiz, virou um político qualquer. Até gravou mensagem natalina com a cônjuge).

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Mas também há o mais relevante: a falta de acompanhamento, pelo povo, do trabalho dos políticos. Jair Bolsonaro era deputado federal havia 28 anos, mas, fora do Rio de Janeiro, ‘ninguém sabia’ quem era. Eis a maior demonstração do quanto era inexpressivo. Pois, por isso mesmo, pôde se vender como amante de Deus, da pátria e da família, sendo quem é, e se aproveitar do cansaço popular com políticos ‘tradicionais’ para acabar eleito presidente da República. E dar no que deu.

O radicalismo só serve aos vendedores de miragens. Curioso: na política brasileira, políticos que dizem cultivar o diálogo também são ilusionistas. Mas, por trás dessas mágicas de fundo de quintal, há saídas para caminhos melhores que os tomados atualmente no Brasil. Em resumo, política é conversa, e só assim pode haver consenso. Quem propõe o extermínio do outro ou é criminoso ou quer vantagem eleitoral nisso (às vezes, as duas coisas). E nem toda aliança pode ser aceita sem questionamentos, pois isso é da política — oposição onde deve haver, meio-termo quando preciso.

Para uma retrospectiva melhor em 2022 do que em 2021, não basta se dedicar à escolha para a Presidência. Vote bem para deputados e senadores. Afinal, em parte, são eles que asseguram o sucesso ou, pelo menos, a manutenção de um governo. E, se seu candidato ou candidata for bom, pensará primeiro nas pessoas do que em indicar apadrinhados para uma estatal cheia de dinheiro.

**Este texto não, necessariamente, reflete a opinião do 40EMAIS.

Fotos colunistas rafael motta 1 Rafael Motta, nascido em Santos e jornalista formado em 2000, trabalha desde 1993, aos 14 anos, em veículos de comunicação da Baixada Santista e de alcance nacional (portanto, já está nos 40 e mais). É editor assistente de Cidades do jornal A Tribuna e autor dos livros ‘Tarquínio – Começar de Novo’ (Editora Leopoldianum, 2012, biografia) e ‘Catorze – A Via-Sacra de Erasmo Cupertino’ (Edição do Autor, 2020, ficção). Acredita que o exercício da política pode melhorar a democracia, pois está ao alcance de todos: não é preciso ter mandato para agir politicamente. E pensa que os políticos pagos com o nosso dinheiro devem satisfações à sociedade. Quando não nos dão explicações, devemos buscá-las. Um caminho é analisar o que fazem, para entender seus objetivos.

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