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Rafael Motta: Roupas velhas no varal eleitoral. E muita espuma

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Foto: Marcos Corrêa/PR

“Roupa que fica muito tempo no varal desbota.”

Faz quase 20 anos que ouvi essa frase do ex-deputado federal Rubens Lara, falecido em 2008. Ele a escutou de alguém, que soube dela por um terceiro, até que ninguém saiba quem fez essa declaração certeira no mundo político. É fácil entender: a novidade causa impacto, mas, se é anunciada muito antes de uma eleição, sobra tempo para adversários acharem elementos para provar que o novo nem sempre é bom, que não é tudo isso, que talvez seja o preto e branco vestido de arco-íris.

E assim se chega ao ex-ministro da Justiça e da Segurança Pública Sergio Moro, filiado ao Podemos no último dia 10 e apontado como presidenciável desde o dia em que deixou o primeiro escalão do governo de Jair Bolsonaro, em abril do ano passado. Está ‘pendurado no varal’ desde então.

Moro representa a nova esperança de cidadãos ansiosos pela tão decantada ‘terceira via’, a opção que esperam entre Bolsonaro e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva — um homem que, como se deve lembrar, tem 76 anos e, por mais fôlego que queira demonstrar, poderá não ter a mesma energia de 2003, quando assumiu seu primeiro mandato, e enfrentará um Congresso cujo Centrão talvez nunca tenha sido tão grande, faminto e poderoso.

Sobre Bolsonaro, mais ‘jovem’ do que Lula, é isso aí. Tanto sabe disso o PL, partido do ex-presidiário Valdemar Costa Neto, condenado por corrupção, que o partido parece não ter se abalado com a notícia do adiamento da filiação do presidente da República — há dois anos sem partido e sem ter conseguido reunir assinaturas para criar outro.

Os partidos políticos são pragmáticos, palavrinha esquisita que significa o fato de que adversários não são inimigos e se pode chegar a um entendimento com eles, de preferência em busca de alianças boas para as duas (ou mais) partes. O PL foi forte nos governos Lula, ocupando ministérios endinheirados, como o dos Transportes, sob o qual estava a antiga Codesp, administradora do Porto de Santos. Para 2022, quer estar com o PT no Nordeste (onde a lembrança de Lula é mais forte) e com o PSDB em São Paulo (para eleger governador o atual vice, Rodrigo Garcia).

Bolsonaro, claro, abomina essas ideias. Mas, entre ter como filiado um presidente da República carregado de problemas de imagem e a chance de se fortalecer nos estados, o PL deverá ficar com a segunda opção. Afinal, quanto mais palanques fortes estiver apoiando, mais chance terá de associar o nome de seus candidatos a deputado federal a candidatos com alto potencial de vitória. Fazendo mais deputados, terá direito a mais dinheiro do Fundo Partidário. O PSL, ex-partido de Bolsonaro e que fez mais de 50 cadeiras na Câmara em 2018, recebe em torno de R$ 100 milhões por ano.

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E Moro? Está aí, caros leitores maiores de 40: quarando. Mas nem todo dia será de sol. Nem todo dia o vento aparece sem chuva. O Podemos deverá crescer à custa do ex-juiz que desejava ser ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), a ponto de ter abandonado a magistratura para ser membro do governo que, com suas decisões judiciais anuladas anos depois, ajudou a eleger. Para o Podemos, menos vale um Moro presidente do que um Moro candidato puxador de votos de um nicho do eleitorado, para se fortalecer no Congresso como governista ou membro do Centrão.

Então, no fundo, ninguém quer a Presidência? Na verdade, se vier, ótimo: é ter nas mãos a chave do cofre. Se não vier, é bom estar aliado a quem tem a chave. Isso explica por que, afora os extremos partidários, quase todas as mais de 30 siglas existentes se entendem e políticos transitem tanto entre elas. Como dizia outro falecido político, um poderosíssimo baiano que fez da sigla ACM uma grife, não necessariamente para o bem de todos: “É melhor sofrer no poder do que longe dele”.

**Este texto não, necessariamente, reflete a opinião do 40EMAIS.

Fotos colunistas rafael motta 1 Rafael Motta, nascido em Santos e jornalista formado em 2000, trabalha desde 1993, aos 14 anos, em veículos de comunicação da Baixada Santista e de alcance nacional (portanto, já está nos 40 e mais). É editor assistente de Cidades do jornal A Tribuna e autor dos livros ‘Tarquínio – Começar de Novo’ (Editora Leopoldianum, 2012, biografia) e ‘Catorze – A Via-Sacra de Erasmo Cupertino’ (Edição do Autor, 2020, ficção). Acredita que o exercício da política pode melhorar a democracia, pois está ao alcance de todos: não é preciso ter mandato para agir politicamente. E pensa que os políticos pagos com o nosso dinheiro devem satisfações à sociedade. Quando não nos dão explicações, devemos buscá-las. Um caminho é analisar o que fazem, para entender seus objetivos.

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