Rafael Motta: Rússia, Ucrânia e Brasil: “tanto faz” não tem espaço

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Condenar a invasão russa à Ucrânia ou manter neutralidade? A comunidade internacional — líderes de nações, representantes diplomáticos na Organização das Nações Unidas (ONU) — têm cobrado do presidente Jair Bolsonaro (PL) que se manifeste abertamente com “sim” ou “não” à operação militar. Nada de “tanto faz”. Uma visão particular deste articulista: o ataque cometido pela Rússia é condenável, como foram a Guerrra do Vietnã e a entrada no Iraque, ambas pelos Estados Unidos. Achar que os atos norte-americanos eram justificáveis é o mesmo que apoiar os atos russos de hoje.

Afora isso, que tem o Brasil, de forma individual, com ameaças e medidas militares por parte de países que não o seu e contra nações que não a sua?

Uma questão é, justamente, a visão que o mundo tem do governo brasileiro. A depender do que pensa, de como se decide, das posturas que adota em relação a temas sensíveis ao planeta (como segurança, cuidado com o ambiente, respeito ao território alheio, regras para que certas economias não engulam outras; enfim, a política externa), o Brasil será visto com lupa. E essa atenção será positiva à medida que não haja dubiedade. Como em uma máxima cristã, deve-se ser quente ou frio, pois Deus vomita o morno — isto é, a neutralidade.

Por mais que a diplomacia brasileira na ONU, composta por homens de carreira no Estado e formados no sentido de negociar até o limite do impossível, esteja tratando da guerra atual em discussões de alto escalão, o Governo do Brasil não é simbolizado por um membro do Ministério das Relações Exteriores. Quem projeta a imagem nacional ao resto do planeta é o presidente da República. Não adianta a mãe ser severa se o pai passa a mão na cabeça da criança: o filho não respeitará a família, saberá que é fraca, explorará essa contradição para obter vantagens.

Defensores da (falta de) política externa do presidente dirão que estar neutro é a melhor opção para um país que aposta no agronegócio (pois agro é pop, agro é tudo, agro é uma bancada forte e influente de políticos do Centro-Oeste que pode indicar a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, como vice na chapa de Bolsonaro para a eleição deste ano). De todo o fertilizante importado pelo Brasil, 23% vêm da Rússia. O Brasil quer, claro, elevar a produção própria. Recentemente, a Petrobras vendeu uma unidade de fertilizantes não concluída no Sul. O comprador é russo.

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A neutralidade entre partes com forças muito diferentes significa apoiar a mais poderosa. Então, lembrando a data que vem aí, os 200 anos da Independência brasileira em relação a Portugal, a nação só poderá dar outro grito como o do Ipiranga se tiver um projeto mínimo de crescimento. Não é o discurso do tempo da última ditadura, de fazer o bolo crescer para dividi-lo depois, mas de planejar o Brasil para que cada qual possa levar seus ingredientes para o bolo, participar de seu preparo e comê-lo em fatias não tão desiguais quanto as de agora.

Um país de famintos estará excluído de quaisquer decisões que exijam bom senso, autonomia nas atitudes, respeito a princípios democráticos, exemplos internos antes de se propor alguma coisa a outras nações, até mesmo entendimento mútuo. Quando o Brasil crescia e saía do mapa da fome, perto do pleno emprego e aumentando níveis de formação escolar e universitária, era chamado a mediar conflitos. Era visto com lupa, e o que se achava, ainda que imperfeito, vinha melhorando. Atraía atenções, diversificava investimentos, tinha como falar alto e grosso quando necessário.

É por isso que, no meio de um conflito que tem um país que vende fertilizantes ao Brasil, mas pode perder força econômica e produtiva por estar investindo numa guerra, Jair Bolsonaro deveria usar o que resta da influência brasileira para salvar um dos poucos segmentos lucrativos que restaram no pós-pandemia. Acredite: o Brasil ganharia condenando a guerra. Melindres duram pouco: o fim do conflito significaria poupar vidas e dinheiro, até, para produzir adubo — o verbal se tem de graça.

**Este texto não, necessariamente, reflete a opinião do 40EMAIS.

Fotos colunistas rafael motta 1 Rafael Motta, nascido em Santos e jornalista formado em 2000, trabalha desde 1993, aos 14 anos, em veículos de comunicação da Baixada Santista e de alcance nacional (portanto, já está nos 40 e mais). É editor assistente de Cidades do jornal A Tribuna e autor dos livros ‘Tarquínio – Começar de Novo’ (Editora Leopoldianum, 2012, biografia) e ‘Catorze – A Via-Sacra de Erasmo Cupertino’ (Edição do Autor, 2020, ficção). Acredita que o exercício da política pode melhorar a democracia, pois está ao alcance de todos: não é preciso ter mandato para agir politicamente. E pensa que os políticos pagos com o nosso dinheiro devem satisfações à sociedade. Quando não nos dão explicações, devemos buscá-las. Um caminho é analisar o que fazem, para entender seus objetivos.

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