Datas comemorativas

Diego Brígido

Por Diego Brígido

 

datas comemorativas

Eu não sou bom de datas comemorativas, nunca fui, que o digam meus afilhados, compadres e melhores amigos. Já nem sei quantos aniversários e dias das crianças deixei passar em branco, seja porque não lembro o dia ou porque não lembro no dia. O que é diferente, mas no fim é igual, porque a consequência é sempre a mesma: uma criança frustrada, uma mãe brava comigo ou um amigo chateado.

Na verdade, na maioria das vezes, as crianças e os amigos não se importam muito, mas as mães, ah com essas eu costumo ter problemas. Eu sei, o dia das crianças, a Páscoa e o Natal são datas que não se esquece, bem, eu até esqueceria se o mundo inteiro não fizesse questão de lembrar. 

O fato é que tem outro problema, eu nunca sei o que comprar, nem pra criança, nem pra adulto. Eu nunca sei o super-herói do momento (e acabei de me dar conta que nem sabia escrever super-herói), o jogo de videogame da moda ou a boneca mais disputada.

Na verdade, eu tenho medo das bonecas de hoje, que mais parecem androides com vontade própria e que atacam a geladeira de madrugada. Então, junta esse desapego aquariano às datas e essa total desinformação sobre os universos kids e teen, e a mensagem que meu cérebro decodifica é: se passar esse ano, no próximo tem de novo. 

E assim, passam-se décadas. A única forma de um aniversário não passar batido por mim, é se tiver festa. Aí não tem escapatória, porque eu sou desligado, mas não sou de passar vexame em eventos sociais. 

A não ser uma vez, na festa de aniversário dos filhos de um casal de grandes amigos – meus compadres, aliás – cujo tema era super-heróis (agora já sei escrever) e no convite dizia para os convidados irem a caráter e, claro, como eu não sou de passar carão em festas, fui. 

Comprei uma camiseta linda do Capitão América, que eu sabia que jamais usaria novamente, porque, bem, tenho esse problema de não conhecer os heróis. Mas meu cérebro aquariano se distraiu, ou me traiu, bem na parte do convite onde dizia – HOMENS, FAVOR NÃO IREM DE CAPITÃO AMÉRICA, POIS ESSA É A FANTASIA DO ANIVERSARIANTE E DO PAI DELE. 

Fui informado da mancada, assim que cheguei no estacionamento da festa e encontrei outro casal de amigos queridos (também compadres). E, bem, nem preciso dizer que éramos três Capitães América idênticos na festa e uma mãe revoltada. 

Pelo menos, eu levei presentes. Aliás, já entrei com os pacotes abanando na frente do rosto, pra esconder o olhar da mãe me fuzilando. Eu disse, sempre as mães!

Isso de não ter filhos em meio a uma turma bastante fértil realmente me faz passar por poucas boas. Outra vez, aniversário do filho de um outro grande amigo, lá fui eu com o convite em mãos chamar o Uber. Escrevi o nome do buffet e logo apareceu no aplicativo. Cheguei na festa e estranhei não ter visto meu amigo, nem o aniversariante e nenhum rosto conhecido. Como o salão estava vazio ainda, pensei que tivesse me adiantado demais, então, entrei, deixei o presente com a recepcionista (viu, em festas eu levo presente mesmo), escolhi uma mesa e logo comecei a ser servido de cerveja e salgadinhos. Só achei estranho um cara que me encarava o tempo todo – eu não o conhecia e tampouco ele a mim.

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Papo de Vendedor

Então, suspeitando da demora do aniversariante e dos meus amigos, fui perguntar à mocinha onde estava o Cauê. E pra minha surpresa ela pergunta:

– Cauê é filho de quem? 

– Oras, ele é o aniversariante.

– Não, o aniversariante aqui é o Bruno. 

– Ué, mas aqui não é o Abracadabra? 

– É sim, mas tem duas unidades nessa avenida. 

Bom, sem saber onde enfiar a fuça, voltei à mesa, peguei minhas coisas, larguei minha cerveja, peguei o presente de volta na caixa e pedi que a recepcionista se desculpasse com o moço que me fuzilava com os olhos – que provavelmente era o pai do Bruno, pois talvez ele fosse pagar por um ‘convidado’ a mais. 

Em outra ocasião, cansado de chegar em festas de criança sem uma criança a tiracolo, resolvi levar um garotinho de um abrigo infantil onde eu era voluntário. O Lucas. Éramos muito apegados e me liberaram para passar o dia com ele. Foi um sábado muito divertido e, ao final, fomos ao shopping para que ele mesmo escolhesse a roupa que usaria na festa. Ele escolheu obviamente uma de herói e obviamente que eu não me lembro qual. 

Lá fomos nós. Causamos um misto de comoção e alegria ao nos verem entrando de mãos dadas no buffet. Tudo ia maravilhosamente bem até que o Luquinhas, que nunca tinha ido a um buffet, se mijou todo, dentro da piscina de bolinhas, pra não ter que parar de brincar. Acabou com a alegria da garotada e eu fui testar meus dotes paternos no trocador. 

Meses depois, vi o Lucas na rua, com os pais adotivos, mas eles já o chamavam por outro nome. Não tive coragem de abordar e fiquei com as lembranças dos bons momentos que passamos, feliz por ele ter uma família agora. 

Desde então, sigo indo sem crianças às festas de criança. E, pra evitar gafes, leio o convite e os endereços no aplicativo repetidas vezes. E se posso fazer um pedido aos amigos, peço apenas que continuem me lembrando das datas e que me perdoem se ainda assim passar batido. Para o amor não tem tempo… ruim!

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