Dramas da quarentena aos quarenta

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Isso da quarentena estar prestes a acabar quando os quarenta estão a poucos meses de chegar é uma covardia das brabas. Voltar a socializar, após sete meses de isolamento, não está sendo tarefa fácil, sobretudo pra quem começa a sentir o peso da meia idade, que de meia, convenhamos, não tem nada. 

Diga-se aqui que não acho justo neste ano em que o mundo parou, o tempo continuar andando, assim sem a menor consideração por quem ficou pra trás. O que eu faço com as experiências que eu não tive nesses mais de 200 dias e que me seriam fundamentais pra entrar nos quarenta de peito estufado?

Desquarentenar aos quase quarenta tem sido assim: na hora de sair, a gente se irrita com todos esses protocolos, mas se irrita ainda mais com quem não segue os protocolos. No bar, não dá pra entender o que o garçom fala de máscara, mas dá vontade de pular no pescoço do sujeito, quando ele puxa ela pela frente e deixa que nem cueca arriada no queixo, pra explicar o tal drinque.  

Pra cumprimentar a turma, tem que ser de soquinho, mas se é pra contar uma coisa bem legal, que merece ser dita a plenos pulmões, aí a gente dá aquela abaixadinha marota na máscara – que nem o garçom – e solta o verbo. Certamente o vírus respeitará esse momento e não contaminará ninguém, ainda mais os que têm lá pelos quarenta. Questão de hierarquia!

Mas também se o maldito não respeitar e pular da nossa boca, vai se agarrar em algum copo tão besuntado de álcool gel, que ele vai escorregar direto pro sapato da namorada patricinha daquele amigo com máscara do exército. 

E tudo bem, porque ela deixa o sapato na porta, quando chega em casa. Eu também, já são uns seis pares e estão quase alcançando a porta da vizinha, que, aliás, tem promovido festas de família desde maio, quando estávamos no auge da pandemia e eu quatro meses mais distante dos quarenta. Agora, a idade tá me alcançando e pode ser que ainda chegue antes da vacina. A vizinha vai bem, obrigada. 

Na mesa, o assunto acaba em menos de meia hora, mesmo se ela estiver com a lotação máxima permitida – seis pessoas sem febre. Não é pra menos, depois de sete meses em casa, todo mundo viu as mesmas séries e as mesmas lives, aí não tem diversidade de assunto, né? Os que salvam a conversa são aqueles que aprenderam a fazer pão de fermentação natural ou os que furaram a quarentena. Mas esses últimos a gente também quer encher de porrada. 

Perto dos quarenta, a paciência vai ficando mais curta, né, e aí junta com as conversas que também ficaram curtas, o que faz com que a gente fique no máximo uma hora e quinze no bar. Demorou mais pra se vestir e chamar o uber do que pra tomar dois chopes e uma fritas – fritura é sempre mais seguro, porque mata algum coronavírus que esteja habitando no alimento.

E, antes de ir embora, a gente vai julgar todo mundo em volta que não estava nem comendo nem bebendo e mesmo assim estava sem máscara. A regra é clara: só tirar a máscara quando for comer ou beber – ou, como já disse, no caso de histórias interessantíssimas, que precisem ser contadas a plenos pulmões. Elas são raras ultimamente, vale o risco.

Diego Brígido
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