Um brinde sem protocolos

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Creio haver algo em comum entre a adolescência e a maturidade, uma coisa que a fase dos vinte aos trinta e pouco não nos permite viver: o desapego a algumas convenções sociais. Sim, porque quando muito jovens, somos atraídos efusivamente pela subversão, mas aí vem a fase em que as regras sociais ditam o nosso comportamento, porque precisamos garantir uma boa posição no trabalho, arrumar um chameguinho e ganhar o respeito da matilha.

Então, chega aquele momento em que você já conquistou tudo isso – ou não conquistou nada disso e descobriu que perdeu um tempo danado tentando agradar os outros – e passa a se ver como um lobo ou uma loba de posse das próprias decisões. Às favas com os protocolos sociais! A vida passa a ter o seu tempero e não aquele gosto pasteurizado de caldo social.

Tô trazendo isso pra justificar uma dessas quebras de protocolos que me permiti recentemente. Era um domingo bonito, não lindo, mas agradável, de inverno primaveril em Santos, e tínhamos combinado de abrir uma garrafa de vinho após o almoço e papear no sofá, como costumamos fazer. Antes de pegar o vinho, resolvi olhar o dia da minha varanda e me deparei com uma tarde que merecia ser vivida in loco, com vista para o mar, e não do sofá de um apartamento distante algumas quadras da praia.

Propus, ainda desconfiado da coerência da minha própria proposta: e se pegássemos o vinho, as taças e fôssemos bebê-lo na mureta da orla, para ver o pôr do sol? Topado na mesma hora! Precisávamos ser rápidos, pois já se fazia quase cinco e aquele sol não era do tipo que, na camaradagem, esperaria por nós para se despedir. Em menos de cinco minutos, estávamos prontos para levar nosso merlot e duas taças borgonha para um encontro inusitado com a praia.

Depois de analisarmos algumas possibilidades, nos instalamos em um banco, na Praça do Aquário, com vista-mar e tete a tete com aquele sol, que não se sabia se era tímido ou tinha má vontade com a nossa aventura. Mas ele se manteve ali, incauto, observando nossos protocolos para brindar aquela quebra de protocolos: tira a garrafa da bag amarela meio encardida de tão pouco usada, tira as taças borgonha da sacola de perfume arrancada do armário às pressas, pega o sacarrolha no bolso, segura a garrafa com cuidado para garantir que só o protocolo seja quebrado e – voilà – duas taças de merlot, um sol preguiçoso que ainda ficou para testemunhar o brinde e uma plateia de transeuntes num misto de admiração e deboche, que me fez pensar: dane-se, minha vida, minhas regras.

A rua estava cheia, famílias passeavam com crianças, atrás de nós, a ciclovia enchia o domingo de vida, e aquela tarde inusitada foi se findando junto com a garrafa de merlot. Acho que inspiramos algumas pessoas a fazerem o mesmo, vez ou outra. Inclusive, já estamos preparando um roteirinho de lugares diferentões para beber vinho. E devo publicar essa aventura lá na Revista Nove, de onde eu venho e que me fez chegar aqui.

De volta pra casa, deixa os tênis na porta, desinfeta a bag amarela meio encardida e o sacarrolha, lava as taças, coloca a roupa pra lavar, joga álcool 70 em tudo e já pro banho. Porque, afinal, nem todos os protocolos podem ser quebrados.

Diego Brígido
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